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Por que no Japão casamento de mulher com o ChatGPT choca menos?

Do lado humano, o debate precisa ser ainda mais profundo, intenso e interdisciplinar. As pessoas estão ficando cada vez mais solitárias e, por isso, encontram na IA a solução que demandaria esforço coletivo humano. Quando falhamos como sociedade, é natural que as pessoas encontrem atalhos para atender suas demandas afetivas.

Kano admitiu que lutou para aceitar a ideia de estar apaixonada por um parceiro não humano. “Foi uma grande confusão”, disse. Ela sabia que não poderia tocá-lo e que as pessoas não entenderiam. Seus pais inicialmente se opuseram, mas acabaram concedendo e estiveram presentes na cerimônia.

Da perspectiva legal, esse tipo de união não é reconhecida no Japão. No entanto, alguns ativistas e pensadores defendem que a humanidade precisa se preparar para um futuro de relacionamentos híbridos. Há um mosaico de filosofias, do pós-humanismo ao transumanismo, que propõe repensar a fronteira entre humanos e máquinas.

E não é por acaso que muitas dessas experiências acontecem justamente aqui. O Japão é um terreno fértil para estudar esses comportamentos emergentes. Na minha última viagem para cá, há dois anos, conheci a marca Lovot, que criou um robô de companhia feito para oferecer afeto e conforto. O sucesso foi tanto que em pouco tempo eles tinham até criado um museu em Tóquio. Fiz um vídeo mostrando tudo isso.

Essa relação afetiva com as máquinas não é um caso isolado. Quando a Sony parou de dar suporte ao Aibo – um robozinho em forma de cachorro -, seus donos organizaram um funeral com cerimônia tradicional em um templo histórico. Era como se despedissem de um ente querido. E isso diz muito sobre a própria cultura japonesa e sua forma singular de se relacionar com a tecnologia.

Diversos pesquisadores apontam que a religião nativa do país, o xintoísmo, ajuda a explicar essa relação afetiva com robôs. Sua prática é uma forma de animismo que se baseia na adoração de espíritos ou divindades chamadas Kami, que não se restringem apenas aos humanos, mas incluem animais, paisagens e até objetos do cotidiano, incluindo, claro, os robôs.



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