Essa estética do não-dito e do desaparecimento leva o espectador a inferir e remontar o filme, daí sua sensação de desconexão e falta de continuidade. Essa escolha reproduz a experiência de saber demais como perigoso e saber de menos, também.
Nisso, o filme é uma crítica ao próprio cinema de denúncia, que se inscreve psiquicamente como apagamento.
Wagner Moura faz um registro opaco e antiespetacular. Seu personagem, Marcelo, não é um espião tradicional, mas um professor implicado em uma trama que o ultrapassa. Seu passado político e sua morte, não explicitados, funcionam como um vazio ativo e um ponto cego que organiza o olhar do espectador.
A força da atuação está na economia gestual e no cansaço progressivo para aquele que percebeu tarde demais seu envolvimento.
E isso não poderia ser mais atual: o suspeito e acusado não é um militante armado ou um líder popular, mas alguém tentando fazer pesquisa e transmitir conhecimento.
Há um fio condutor também nas mulheres protagonistas. Sonia Braga, em Aquarius, grita com o corpo. Domingas, de Bacurau, é o feminino explosivo, atravessado por luto, raiva e memória. A que bebe, acusa, sangra. Mas Tânia Maria é uma mulher do cotidiano ordinário e não uma militante “exemplar” ou heroína da resistência ou delatora caricata. Ela murmura, cuida, calcula, protege e ocupa a resistência mínima —de quem não entra para a história, mas sem a qual a história não continuaria.














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