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Trump e Putin fazem Europa puxar gasto militar global

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Mesmo com uma pequena queda temporária na gigantesca despesa dos Estados Unidos com defesa, o gasto militar global cresceu em 2025, mantendo o maior patamar histórico desde a Segunda Guerra Mundial.

O crescimento ante 2024 foi de 2,5% em termos reais, chegando a US$ 2,63 trilhões -ou R$ 13,58 trilhões, cerca de R$ 1 trilhão a mais que PIB do Brasil estimado para 2025. Quem puxou a alta foi a Europa, região que registrou recordistas 12,7% de aumento no dispêndio com suas Forças Armadas.

É o que aponta a 67ª edição do Balanço Militar, o mais completo raio-X do setor de defesa no mundo, publicado nesta terça-feira (24) pelo britânico Instituto Internacional de Estudos Estratégicos, conhecido por sua sigla nglesa, IISS.

O gasto europeu é cortesia de dois presidentes, Vladimir Putin e Donald Trump. O russo vinha alterando a percepção de risco no continente desde que anexou a Crimeia, em 2014, mas isso explodiu com a invasão total da Ucrânia, que completa quatro anos também nesta terça.

Se isso acendeu alertas e colocou em marcha a remilitarização europeia, foi o americano quem catalisou o processo ao voltar ao poder no ano passado.

Ele cumpriu sua promessa de passar a conta do apoio ocidental a Kiev para os europeus, zerando seu envio de ajuda e fazendo os colegas comprar suas armas para fornecer aos ucranianos. E antagonizou-se com os aliados continentais na Otan, ameaçando inclusive tomar a Groenlândia da Dinamarca à força.

Com tudo isso, o gasto europeu disparou, puxado principalmente pela Alemanha. Em 2024, Berlim havia gasto US$ 88 bilhões (R$ 455 bilhões), em valores corrigidos, em 2025 foram US$ 107,3 bilhões (R$ 555 bilhões), com muito mais por vir.

Com isso, os alemães ampliaram a vantagem sobre o quinto lugar no ranking, o Reino Unido. O resultado desse processo é que a Europa passou de 17% da fatia mundial desse gasto em 2022, quando houve a invasão, para 21,4% meros três anos depois.

É um grande aumento, em especial numa área em que contratos são de longuíssimo prazo e demandam investimentos pesados.

Na primeira posição do ranking, os EUA reinam soberanos, apesar de um soluço orçamentário que viu o país gastar cerca de 5% a menos com defesa no ano passado.

Isso ocorreu porque o ano fiscal de 2025, que vai de outubro de 2024 a setembro seguinte, foi o primeiro em que valeu uma regra de manutenção de patamar de gastos nominais na área de defesa.

A resposta de Trump foi apresentar o primeiro orçamento da área a passar do US$ 1 trilhão (R$ 5,17 trilhões), que foi aprovado em dezembro e pode ficar até 50% maior, com programas como o sistema antimíssil Domo Dourado. Logo, o relatório do IISS de 2026 trará novo recorde, além de refletir as aventuras do americano na Venezuela e no Irã.

Ainda assim, os EUA gastaram 35% do valor global com Forças Armadas, mais do que qualquer região combinada do planeta. Em dez dias, os americanos aplicam tudo o que o Brasil tem à disposição para defesa num ano todo.

Mesmo reduzido, o orçamento americano quase empata com a soma dos próximos 14 países no top 15 do IISS, US$ 1,15 trilhão (R$ 5,94 trilhão), e ultrapassa com folga os US$ 550 bilhões (R$ 2,84 trilhão) do restante do mundo.

Do ponto de vista de gasto em proporção ao PIB, Trump não cumpre o que cobra dos aliados, ou seja, 5%. Os EUA baixaram seu dispêndio a 3% do Produto Interno Bruto no ano passado. O mundo, em compensação, segue crescendo, tendo chegado a 2,01%.

Uma novidade ocorre no segundo e terceiro postos do ranking, que há anos são ocupados respectivamente por China e Rússia, rivais de Washington na Guerra Fria 2.0.

Considerando seus orçamentos não pelos valores nominais, mas sim pelo critério de paridade de poder de compra, ou seja, o quanto rende o dinheiro considerando os custos de produção naqueles países, pela primeira vez na história o total combinado ultrapassa o dos EUA.

Pequim gastou US$ 251,3 bilhões (R$ 1,3 trilhão), mas na prática equivaleram a US$ 531,4 bilhões (R$ 2,74 trilhão). Já Moscou aplicou US$ 186,2 bilhões (R$ 962 bilhões), US$ 523,6 bilhões (R$ 2,7 trilhão) de fato.

Isso se deu pela combinação do engasgo americano e a contínua expansão dos gastos dos rivais. Putin, contudo, colocou o pé no freio após ter elevado em 2024 seu gasto em 57% ante o registrado em 2023.

Em 2025, o crescimento foi de cerca de 3% em termos reais, embora o próprio IISS diga que isso apenas possa significar um melhor manejo do orçamento. “A Rússia mantém sua máquina de guerra”, disse o diretor-geral do IISS, Bastian Giegerich, dizendo que Moscou mostrou capacidade adaptativa e de recuperação apesar de pesadas perdas. “O país segue sendo uma ameaça à Europa.”

Putin até elevou um pouco seu gasto em proporção ao PIB, de 7,16% em 2024 para 7,33% em 2025. É o terceiro maior nível do mundo, atrás da previsível Ucrânia (21,2%) e da surpreendente Argélia, que com 8,8% puxa o dispêndio da macrorregião Oriente Médio/Norte da África ao lado do beligerante Israel (6,5%).

O Brasil, que já havia caído três posições no ranking de 2023 para 2024, desceu mais três degraus e ocupa o 20º lugar nas contas do IISS, devido principalmente ao cortes orçamentários. No fim do ano, Congresso aprovou e o presidente Lula (PT) sancionou projeto prevendo gasto de até R$ 5 bilhões anuais por fora da meta fiscal com projetos prioritários, mas isso não deve alterar muito o quadro geral.

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