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Igreja nomeia padre condenado por estupro e abre crise na França

PARIS, FRANÇA (FOLHAPRESS) – Dominique Spina, padre no sudoeste da França, foi condenado em 2006 a cinco anos de prisão pelo estupro de um estudante de 16 anos. Isso não o impediu de ser nomeado em junho para um cargo importante na arquidiocese de Toulouse. Agora, a revelação da indicação abriu uma crise na igreja católica francesa.

Spina tornou-se chanceler da arquidiocese, o encarregado de cuidar dos arquivos de batizados, crismas e casamentos. “É um tapa na cara das vítimas” de abuso sexual na Igreja, diz Alain Esquerre, porta-voz de um grupo que denuncia casos do gênero.

Guy de Kerimel, 72, arcebispo de Toulouse desde 2021, alegou em um comunicado que quis “fazer misericórdia”. Afirmou que Spina “demonstrou abnegação e integridade em seu serviço” e que ele não desempenha “nenhuma função de primeiro plano”.

Em comunicado divulgado no domingo (10), a Conferência dos Bispos da França informou estar “em diálogo construtivo” para que De Kerimel “reconsidere” sua decisão. A entidade é presidida pelo cardeal de Marselha, Jean-Marc Aveline, um dos “papáveis” no conclave de maio passado, em que o americano Robert Prevost se tornou o papa Leão 14.

O arcebispo Hervé Giraud, de outra diocese do sul da França, criticou publicamente a nomeação em sua conta na rede social Bluesky. “A misericórdia deve ser antes de tudo para com as vítimas”, afirmou Giraud ao jornal Le Parisien.

O caso que levou à condenação do padre Spina teria ocorrido em 1993. Ele era capelão de duas escolas católicas do ensino médio na cidade de Pau, quando conheceu um aluno interessado em se tornar padre. Nove anos depois, o estudante foi à Justiça denunciando ter sido estuprado.

Inicialmente, Spina confessou parte das alegações, mas depois retirou a confissão. Condenado e preso, cumpriu parte da pena em regime fechado e, depois de libertado, foi transferido da diocese de Bayonne, cidade próxima de Bordeaux, para a arquidiocese de Toulouse.

Em 2009, o site de jornalismo investigativo Mediapart já havia revelado que Spina continuava participando de retiros preparatórios à primeira comunhão. Na época, a arquidiocese garantiu que o padre não tinha “nenhum contato direto com crianças”.

A controvérsia tem como pano de fundo um escândalo de abuso, em outra escola católica da mesma região sudoeste da França, que envolve indiretamente o atual primeiro-ministro, François Bayrou.

Centenas de alunos do colégio Notre-Dame de Bétharram, próximo à cidade de Pau, teriam sido vítimas de maus-tratos e abuso sexual entre as décadas de 1950 e 2010. No colégio, estudaram os filhos de Bayrou, que, além de primeiro-ministro, é prefeito de Pau (na França o acúmulo de cargos é permitido).

Bayrou é acusado de ter conhecimento das denúncias desde os anos 1990, quando foi ministro da Educação. Ele nega, mas o site Mediapart publicou evidências que desmentiriam o premiê.

Em abril, a filha mais velha de Bayrou revelou ter sido agredida por um padre durante um acampamento da escola, quando tinha 14 anos. Ela garantiu nunca ter contado o caso ao pai.

Em 2021, um relatório de uma comissão independente apontou que mais de 200 mil pessoas foram vítimas de violências sexuais cometidas por religiosos católicos, na França, entre 1950 e 2020. À época, a igreja católica francesa prometeu combater com firmeza esse tipo de abuso.

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