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Adestrando algoritmos

“Não é feitiçaria, é tecnologia”, foi uma frase notória do passado televisivo brasileiro, mas cuja revelação da fonte comprometeria a pouca reputação que ainda não construí por aqui.

Reduzir o problema à questão algorítmica, assim de maneira fria, tira de cena as figuras que tomam as decisões que orientam a forma como esses programas são desenvolvidos e, por consequência, nos afetam. Há questionamentos e debates acontecendo não apenas a respeito dos algorítmos, mas também quanto ao design das redes sociais e sua forma de consumo.

Ainda que não exista intenção maliciosa em um conjunto de códigos, há uma decisão de negócios que rege a forma como são escritos e que atropela os riscos associados à indução de comportamentos que estão entre suas potenciais consequências. Entre elas, as métricas de engajamento, as inserções manuais de comandos para priorização e a retenção de atenção.

Se para você esse tipo de programação é nociva, conhecer minimamente o modelo de funcionamento dos sistemas a que estamos expostos boa parte do dia pode ser a melhor forma de diminuir seu grau de influência. Distinguir entre o sistema e quem define o que ele otimiza é um passo necessário nessa dinâmica de adestr? digo, prevenção.

Em pouco tempo, é possível que migremos de um modelo de consumo de informação a partir de plataformas (como as redes sociais, por exemplo) para o ambiente super customizado de interfaces e feeds criados por agentes de inteligência artificial. Você talvez não seja capaz de domesticar algoritmos, mas poderá criar sua própria página, aplicativo ou newsletter recheada com seus interesses, integrando diferentes fontes e as nutrindo pouco a pouco de acordo, exclusivamente, com o que gosta de consumir. Sua rotina então estará mais como a de quem alimenta tamagochis do que adestra pets.

De volta à livraria. O argumento da nossa amiga acaba revelando o oposto do que ela deseja. Reduzir o espectro do que consumimos e fechar a possibilidade para o contraditório favorece o consumo de desinformação. Quem acaba sendo adestrada é ela. Em vez de cortar o que lhe parecia falso, ela achou uma forma de se enclausurar em uma bolha. Ou melhor, bolhas. Aí está outra palavra que precisa ser dita no plural e discutiremos numa próxima conversa.



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