- Fábricas de terceiros, mas tecnologia própria: a produção foi terceirizada para Foxconn, Pegatron e Tata Grou (ex-Wistron), onde instala suas próprias máquinas, o que garante controle sobre a propriedade intelectual sem precisar arcar com o custo da unidade fabril;
- Controle de peças essenciais: as compras de componentes cruciais para os eletrônicos, como telas OLED, memórias flash e sensores de câmera, ocorrem com anos de antecedência e garantem vantagem sobre a concorrência diante da oscilação dos preços;
- Apple Silicon: em um cenário de escassez de semicondutores, o desenvolvimento dos próprios chips (série M1, M2, M3, M4 e o recente M5) selou a independência da Intel, aprofundou a independência de fabricantes e deu maior controle sobre o desempenho e a eficiência de Macs e iPads;
- Um olho em Pequim, outro em Washington: com a guinada geopolítica e o acirramento da disputa entre EUA e China, a Apple transferiu aos poucos parte da produção na China para Vietnã e Índia, país que hoje responde por entre 15% e 20% do total.
- Jogo geopolítico: em tempos de tarifaço e embargos aplicados por Donald Trump (política que, é bom lembrar, começou com Barack Obama), a pulverização da fabricação por países menos sensíveis politicamente tem sido equilibrada com acenos à Casa Branca (investimento US$ 600 bilhões em chips e infraestrutura de IA nos EUA) e à China (planos de novo fundo para energia limpa).
Graças a essa estratégia, Cook virou uma espécie de embaixador da relação EUA-China para a tecnologia. Não à toa, ele deixa de ser CEO, mas, a partir de 1º de setembro, assume o posto de diretor-executivo do conselho da Apple, onde, segundo a empresa, atuará junto a reguladores do mundo todo.
Até agora, salvo casos pontuais como os da App Store e do Apple Pay, ambos com desdobramentos no Brasil, a Apple tem passado quase que batido pelo escrutínio público das práticas anticompetitivas de big techs. Condenadas por monopólio, Google e Meta, por exemplo, quase foram obrigadas a vender partes importantes de seus impérios.
Deslocar Cook para a nova função talvez indique que as coisas podem mudar. Sobretudo, à medida que a Apple precisar lidar com o bode na sala da IA.
Apresentado em 2024 como resposta da empresa para a era da IA, o Apple Intelligence é uma proposta sutil de adicionar camadas de inteligência a serviços já existentes sem mudar radicalmente a experiência dos usuários de iPhones e iMacs. Sutil a ponto de não obrigar investimentos monumentais em data centers, como suas colegas big techs, mas não a ponto de tornar imperceptíveis algumas falhas (o resumo de notificações chegou a inventar notícias), atrasos não programados (a integração da Siri com o ChatGPT tardou e, quando chegou, falhou em encantar) e uma dependência incomum (para a empresa que cria os próprios apps, sistema operacional e chips, soa estranho que, na era da IA, recorra aos modelos de linguagem de outras companhias).
Para junho, a expectativa é que uma nova versão da Siri, atualizada com o Gemini, do Google, venha a público. Para funcionar na China, precisará de um parceiro local, o que certamente deixará Washington insatisfeito. De todo modo, colocará a Apple no centro de uma tecnologia tão promissora quanto controversa. Ainda não deve ser o salto de independência cobrada pelos investidores, mas, se combinar a consistência do iPhone com os novos super-poderes dos agentes de IA, pode ser lido como um avanço rumo à era pós-smartphone.













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