Cidadãos da Coreia do Norte, inclusive adolescentes, vêm sendo submetidos a punições extremas por consumir produtos culturais da Coreia do Sul. As sanções incluem execuções públicas, envio a campos de trabalho forçado e humilhações coletivas, segundo denúncia divulgada pela Anistia Internacional no dia 4 de fevereiro.
De acordo com a organização, o regime de Pyongyang trata o consumo de dramas sul-coreanos e músicas estrangeiras como um crime grave. Séries populares como Crash Landing on You, Descendants of the Sun e até o fenômeno mundial Round 6 (Squid Game) estariam entre os conteúdos que motivaram repressões severas. Ouvir músicas de grupos de K-pop, como o BTS, também pode resultar em punições.
Relatos colhidos pela Anistia descrevem um ambiente de medo constante, no qual “a cultura sul-coreana é tratada como um crime sério”. Uma das testemunhas afirmou ter ouvido de um desertor que estudantes do ensino médio foram executados na província de Yanggang por assistirem a Round 6. A informação coincide com reportagens anteriores da Radio Free Asia, que já havia noticiado execuções semelhantes na província vizinha de Hamgyong do Norte.
“Analisados em conjunto, esses relatos de regiões diferentes indicam múltiplas execuções relacionadas ao consumo de séries sul-coreanas”, conclui a Anistia Internacional.
Execuções como forma de intimidação
Segundo depoimentos, a população é obrigada a assistir às execuções como estratégia de controle social. Choi Suvin, que ainda era menor de idade quando presenciou uma dessas cenas, contou que milhares de moradores de Sinuiju foram convocados para assistir à morte de uma pessoa acusada de distribuir conteúdos estrangeiros.
“As autoridades mandaram todo mundo ir. Eles executam pessoas para nos doutrinar e nos educar”, relatou.
Outro depoimento, de Kim Eunju, hoje com 40 anos, reforça o padrão. “Quando tínhamos 16 ou 17 anos, eles nos levavam para ver execuções. As pessoas eram mortas por assistir ou distribuir conteúdo sul-coreano. A mensagem era clara: se você fizer isso, acontecerá o mesmo com você.”
Apesar da repressão, o consumo desses conteúdos seria amplamente conhecido, inclusive entre agentes do próprio regime. “Trabalhadores assistem abertamente, membros do partido assistem com orgulho, agentes de segurança assistem escondidos e a polícia assiste com proteção. Todo mundo sabe que todo mundo vê”, afirmou outro entrevistado.
Dinheiro e conexões definem o castigo
As punições, no entanto, não atingem todos da mesma forma. Segundo os relatos, o desfecho depende do poder financeiro ou das conexões da família do acusado. Pessoas presas pelo chamado “Grupo 109”, uma unidade policial especializada em fiscalizações sem mandado, muitas vezes só conseguem escapar mediante pagamento de propina.
“Quem não tem dinheiro chega a vender a própria casa para pagar entre cinco mil e dez mil dólares e sair de um campo de reeducação”, disse Suvin.
Kim Joonsik, de 28 anos, contou que foi flagrado três vezes assistindo a dramas sul-coreanos antes de fugir do país, em 2019, mas nunca foi punido formalmente. “Minha família tinha contatos. Normalmente, quando alunos do ensino médio são pegos e a família tem dinheiro, recebem apenas uma advertência”, afirmou.
Em contraste, três amigas da irmã de Joonsik foram condenadas a anos de trabalho forçado por não terem recursos para subornar as autoridades.
Lei prevê até pena de morte
Em 2020, o regime norte-coreano aprovou a Lei de Pensamento e Cultura Antirreacionários, que classifica produtos culturais sul-coreanos como “ideologia corrupta”. A legislação prevê penas de cinco a 15 anos de trabalho forçado para quem consome ou possui esse tipo de conteúdo.
Nos casos considerados mais graves, como a distribuição em grande escala ou a organização de exibições coletivas, a punição pode chegar à pena de morte.











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